{"id":9476,"date":"2018-07-31T08:47:22","date_gmt":"2018-07-31T11:47:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.taglivros.com\/bloghlg\/entrevista-svetlana-aleksievitch\/"},"modified":"2018-07-31T08:47:22","modified_gmt":"2018-07-31T11:47:22","slug":"entrevista-svetlana-aleksievitch","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taglivros.com\/blog\/entrevista-svetlana-aleksievitch\/","title":{"rendered":"Entrevista: Svetlana Aleksi\u00e9vitch"},"content":{"rendered":"<p>Em julho de 2018, em comemora\u00e7\u00e3o aos 4 anos do clube, os assinantes da <a href=\"https:\/\/site.taglivros.com\/curadoria\">TAG Curadoria<\/a> receberam o livro\u00a0<em>As \u00faltimas testemunhas,\u00a0<\/em>da Nobel de Literatura Svetlana Aleksi\u00e9vitch. A obra, at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita no Brasil, foi enviada em primeira m\u00e3o aos associados.<\/p>\n<p>A escritora bielorrussa concedeu uma entrevista exclusiva \u00e0 TAG.<\/p>\n<p><strong>TAG &#8211; Diferentemente de muitos autores de l\u00edngua russa, voc\u00ea aborda aspectos que contradizem convic\u00e7\u00f5es, mitos e utopias da Grande R\u00fassia. Como voc\u00ea definiria o Homem Sovi\u00e9tico retratado em seus livros e de que forma ele se relaciona com o passado de sua na\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Svetlana Aleksi\u00e9vitch &#8211;<\/strong> A revolu\u00e7\u00e3o dos anos 1990 foi feita por Gorbachev mais um punhado de <em>Intelligent<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>. <\/em>Isso significa que 90% das pessoas acordaram em um pa\u00eds completamente desconhecido para elas e n\u00e3o sabiam como viver nele. E at\u00e9 agora, elas continuam sem saber, e n\u00e3o aceitam o capitalismo. Tenho ouvido com frequ\u00eancia que as pessoas t\u00eam saudades do socialismo. Naquela \u00e9poca as pessoas n\u00e3o tinham que trabalhar em tr\u00eas lugares. Todos viviam do mesmo jeito. A vida consistia nisso mesmo: em viver, reunir-se ao redor de uma fogueira, tocar viol\u00e3o, conversar, ler livros. Hoje em dia \u00e9 muito dif\u00edcil fazer isso. Em poucas palavras, o capitalismo, mesmo em sua vers\u00e3o n\u00e3o t\u00e3o impiedosa, como o da R\u00fassia atual, \u00e9 um sistema muito cruel. Sim, voc\u00ea pode possuir alguma coisa, mas precisa trabalhar muito duro. Para n\u00f3s, isso significa uma reconstru\u00e7\u00e3o absoluta da vida e da psicologia. Muito poucas pessoas est\u00e3o preparadas para isso.<\/p>\n<p>Em certa viagem que fiz aos arredores de Vladimir, vi em uma loja, logo de manh\u00e3, uma fila dessas pessoas. Que liberdade, nem jornais, nem manifesta\u00e7\u00f5es em Moscou&#8230; Assim que a loja abrir, eles ter\u00e3o liberdade: cinco tipos de vodca, bananas, tudo o que voc\u00ea quiser. Ent\u00e3o perguntei: mas ser\u00e1 mesmo que isso \u00e9 a liberdade para a pessoa? E eles falaram que com isso para eles estava \u00f3timo. O \u00fanico granjeiro, cuja propriedade foi por eles queimada v\u00e1rias vezes, \u00e9 para eles um fascista. Mas por que um fascista? Porque n\u00e3o deixa roubar, e com ele tem que trabalhar da manh\u00e3 at\u00e9 a noite. E todos esses homens, que eram quatro, tinham trabalhado na granja dele, e tinham se demitido.<\/p>\n<p>A liberdade n\u00e3o \u00e9 uma coisa que possa ser adquirida como o chocolate su\u00ed\u00e7o ou como o queijo holand\u00eas. Para isso \u00e9 preciso tempo, \u00e9 preciso viver e passar por um monte de experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Com certeza j\u00e1 cresceu outra gera\u00e7\u00e3o que tem outra vis\u00e3o do mundo mas, mesmo assim, n\u00e3o poucos jovens leem Marx e L\u00eanin. Nas cidades russas museus s\u00e3o abertos e s\u00e3o constru\u00eddos monumentos dedicados a Stalin. Eu n\u00e3o acho que tenha nisso alguma contradi\u00e7\u00e3o geracional. N\u00f3s n\u00e3o somos t\u00e3o diferentes assim. Sim, os jovens sabem l\u00ednguas estrangeiras, sabem usar os computadores, n\u00e3o t\u00eam complica\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas&#8230; Mas mesmo assim, ainda continuamos no mesmo mundo. Ainda n\u00e3o sabemos quem somos e para onde vamos. N\u00e3o temos uma vis\u00e3o de mundo, nem uma concep\u00e7\u00e3o do passado, do presente ou do futuro.<\/p>\n<p>A Bielorr\u00fassia \u00e9 um verdadeiro museu do passado. E na R\u00fassia, o que acontece? Os que est\u00e3o no poder t\u00eam uma concep\u00e7\u00e3o de R\u00fassia, os que chamam a si pr\u00f3prios de patriotas t\u00eam outra, h\u00e1 uma terceira R\u00fassia para os comunistas e uma quarta para os liberais. A R\u00fassia \u00e9 sempre uma intui\u00e7\u00e3o, sempre um projeto que nunca se realiza por completo.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ava a conversar com as pessoas, a refletir com elas sobre o passado, o tempo todo voltavam l\u00e1, para os anos 1930, para o nosso come\u00e7o. No livro <em>O fim do homem sovi\u00e9tico<\/em> h\u00e1 um conto em que uma jovem se lembra de como ela n\u00e3o queria ler <em>Arquip\u00e9lago Gulag<\/em> de Soljen\u00edtsin, apesar de o professor da escola os obrigar a ler. Para ela esse era um livro grande e chato, e tudo o que estava ali escrito parecia-lhe muito alheio. De repente, em uma pra\u00e7a da Bielorr\u00fassia dissolvem uma manifesta\u00e7\u00e3o de forma violenta, prendem centenas de pessoas e come\u00e7am a acontecer pris\u00f5es pelo pa\u00eds inteiro&#8230; A mo\u00e7a, abalada, chega a uma aldeia e v\u00ea o a rapidez com que a m\u00e1quina stalinista ressuscita e come\u00e7a a trabalhar. As pessoas t\u00eam medo de falar e come\u00e7am a fazer den\u00fancias. Ningu\u00e9m as obriga a fazer isso, elas pr\u00f3prias relembraram o que devem fazer. \u00c9 uma relembran\u00e7a gen\u00e9tica. Ent\u00e3o a mo\u00e7a vai embora para a R\u00fassia para continuar os estudos e l\u00e1 come\u00e7a a participar de protestos&#8230; E come\u00e7a a deparar com uma situa\u00e7\u00e3o semelhante: de novo as mesmas conversas, as mesmas trai\u00e7\u00f5es e o mesmo trabalho dos Servi\u00e7os de Intelig\u00eancia. O <em>Arquip\u00e9lago Gulag<\/em> torna-se um livro de hoje&#8230;<\/p>\n<p>Como Putin conseguiu reparar t\u00e3o rapidamente a m\u00e1quina stalinista? De novo o FSB (o antigo KGB)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> pode arrombar qualquer casa, confiscar os computadores, incriminar sem justa causa um blogueiro por ter escrito um post a favor da Ucr\u00e2nia, pelo pa\u00eds inteiro procuram e submetem a julgamento supostos espi\u00f5es: cientistas, professores, militares. As pessoas est\u00e3o assustadas e o que acontece realmente na sociedade, o que ela pensa, ningu\u00e9m sabe.<\/p>\n<p>Ouso dizer que perdemos a chance que tivemos nos anos 1990. Sobre a pergunta de como deveria ser um pa\u00eds, forte ou digno, onde as pessoas vivam bem, a resposta escolhida foi a primeira: forte. Agora \u00e9 de novo o tempo da for\u00e7a. Os russos est\u00e3o em guerra com a Ucr\u00e2nia, com seus irm\u00e3os. Avi\u00f5es russos bombardeiam a S\u00edria&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o existe o \u201cimp\u00e9rio Vermelho\u201d, mas o \u201chomem vermelho\u201d ficou. Continua.<\/p>\n<p>O tempo das esperan\u00e7as se trocou em tempo do medo. O tempo regrediu&#8230; \u00c9 o tempo <em>Second Hand<\/em>&#8230;<\/p>\n<p>Agora eu n\u00e3o estou muito segura de ter escrito a hist\u00f3ria do homem \u201cvermelho\u201d&#8230;<\/p>\n<p><strong>TAG &#8211; Sua obra explora consequ\u00eancias e efeitos decorrentes de grandes acontecimentos hist\u00f3ricos, como a Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Afeganist\u00e3o e a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Em uma entrevista concedida ao jornalista franc\u00eas Michel Eltchaninoff, voc\u00ea comenta que sua escrita busca \u201cesculpir uma \u00e9poca\u201d, mas atrav\u00e9s de qual ponto de vista? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Svetlana &#8211;\u00a0<\/strong>Escrevi cinco livros (<em>A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher, Os meninos de zinco, As \u00faltimas testemunhas, Vozes de Tchern\u00f3bil, O fim do homem sovi\u00e9tico<\/em>), mas na verdade, a vida inteira tenho escrito um \u00fanico livro: uma enciclop\u00e9dia do \u201chomem vermelho\u201d, da \u201cutopia vermelha\u201d, dessa vida que cham\u00e1vamos de socialismo. A cultura russa possui a experi\u00eancia \u00fanica, inocente e terr\u00edvel da tentativa humana de construir o para\u00edso na terra, que terminou com uma gigantesca vala comum. Eu pensei que era importante fazer esse trabalho porque a \u201cutopia vermelha\u201d ainda vai tentar seduzir a humanidade por muito tempo.<\/p>\n<p>Nunca vou esquecer que no tempo do desmantelamento da usina por causa da cat\u00e1strofe de Tchern\u00f3bil, eu passava as noites no alojamento em que moravam os trabalhadores encarregados disso. Na mesa, uma garrafa de tr\u00eas litros de aguardente caseira e as conversas sobre Tsiolkovski<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> e Gorbachev, e sobre Hitler, o comunismo e o capitalismo. Nesse momento, uma mulher j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o jovem traz uns petiscos, e vejo que ela tem umas manchas vermelhas nas m\u00e3os. Perguntei \u201co que a senhora tem?\u201d. Ela respondeu: \u201cN\u00f3s lavamos os macac\u00f5es de nossa gente todo dia. Est\u00e3o contaminados. Prometeram dar-nos m\u00e1quinas de lavar, mas n\u00e3o trouxeram. Lavamos na m\u00e3o.\u201d \u201cMas como \u00e9 que pode?\u201d, e me viro para o chefe que est\u00e1 sentado ao lado. \u201cPrometem\u201d, disse abanando a m\u00e3o, e continuou filosofando. Pois ent\u00e3o, eu tenho certeza que pessoas ocidentais falariam sobre as m\u00e1quinas de lavar e n\u00e3o sobre as ideias malucas de Tsiolkovski. E l\u00e1 trabalhariam as m\u00e1quinas de lavar, e n\u00e3o umas mulheres-kamikaze.<\/p>\n<p>Pergunto-me o tempo todo, qual \u00e9 o sentido dos sofrimentos que temos suportado. Por que, no nosso caso, os sofrimentos n\u00e3o se transformam em liberdade? Entre n\u00f3s \u00e9 costume, come\u00e7ando por Dostoi\u00e9vski, enaltecer, entre outras coisas, essa magia do sofrimento. Eu penso que os sofrimentos, pelo contr\u00e1rio, petrificam a alma humana, e ela j\u00e1 n\u00e3o pode se desenvolver. De qualquer forma, para o desenvolvimento da pessoa, ela precisa de condi\u00e7\u00f5es de vida felizes e normais. Nisso consiste a pol\u00eamica entre Soljen\u00edtsin e Shalamov. Eu, de todo modo, estou do lado de Shalamov. O campo de concentra\u00e7\u00e3o perverte as pessoas. Tanto o algoz, como a v\u00edtima.<\/p>\n<p>Dos relatos de centenas de pessoas, tentei reunir uma imagem de um tempo: que tempo foi esse, como vivemos, quais eram as cren\u00e7as e as esperan\u00e7as. Eu queria gravar esse tempo que, \u00e0 sua maneira, foi \u00fanico. Pode-se dizer que foi um tempo terr\u00edvel, mas um experimento como esse, com o laborat\u00f3rio marxista, n\u00e3o vai acontecer nunca mais. Ficou um mar de sangue.<\/p>\n<p><strong>TAG &#8211; Apesar de ser a \u00fanica escritora mulher a ter recebido o renomado Pr\u00eamio Nobel de Literatura na Bielorr\u00fassia, seu pa\u00eds de origem, as autoridades a ignoram. Como voc\u00ea acredita que a literatura pode posicionar-se frente \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o da classe art\u00edstica e quais limites ela enfrenta face a regimes totalit\u00e1rios?\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Svetlana &#8211;\u00a0<\/strong>Quando foi anunciado que eu tinha sido laureada com o Pr\u00eamio Nobel, os bielorrussos sa\u00edram \u00e0s ruas de Minsk e se abra\u00e7aram e se beijaram. J\u00e1 o ditador Lukashenko n\u00e3o conseguiu achar palavras boas para mim. Ele disse que eu \u201ccubro o pa\u00eds de sujeira\u201d. A mesma coisa falou Stalin em sua \u00e9poca sobre Bunin e Pasternak, e Brejnev sobre Brodsky, todos eles russos laureados com o Pr\u00eamio Nobel. Mesmo depois de 50 anos, os ditadores n\u00e3o mudam em nada, nem no l\u00e9xico.<\/p>\n<p>Mas eu considero que devo fazer meu trabalho tranquilamente, tentar entender meu tempo, responder \u00e0s perguntas que surgem em nosso mundo, que muda t\u00e3o rapidamente. Os ditadores v\u00e3o embora e o povo fica.<\/p>\n<p><strong>TAG &#8211; Segundo a Academia Sueca, voc\u00ea foi premiada com o Nobel pela sua &#8220;obra polif\u00f4nica, memorial do sofrimento e da coragem em nossa \u00e9poca&#8221;. No entanto, esta obra n\u00e3o \u00e9 definida nem como fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, nem jornalismo. Quais palavras voc\u00ea usaria para definir seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Svetlana &#8211;\u00a0<\/strong>Flaubert dizia de si, \u201csou um homem-pena\u201d. Eu sou \u201cuma pessoa-ouvido\u201d. Por muito tempo procurei um g\u00eanero que respondesse \u00e0 maneira como eu enxergo o mundo, \u00e0 maneira como funciona meu olho, meu ouvido&#8230; E escolhi o g\u00eanero das vozes das pessoas&#8230; Eu espreito e ausculto meus livros nas ruas, atr\u00e1s das janelas. Nelas, as pessoas reais contam os principais acontecimentos de seu tempo: a guerra, a queda do imp\u00e9rio socialista, Tchern\u00f3bil, e todos eles conservam na palavra a hist\u00f3ria do pa\u00eds, a hist\u00f3ria comum. Tanto a antiga, como a mais recente. E cada um guarda a hist\u00f3ria de seu pequeno destino humano.<\/p>\n<p>Por um lado, eu sempre quis que as vozes ressoassem em meus livros como um coro e, por outro lado, sempre quero que se ou\u00e7a uma voz humana solit\u00e1ria. Parece-me que hoje as pessoas querem ouvir a voz de outra pessoa, e n\u00e3o a da \u00e9poca ou do tempo em que est\u00e1 tudo concentrado numa esp\u00e9cie de mon\u00f3lito. Sempre me interessou o espa\u00e7o de uma alma humana, pois \u00e9 justamente l\u00e1 que tudo acontece. Eu vejo a grande hist\u00f3ria por meio de pequenas hist\u00f3rias. Ent\u00e3o n\u00e3o fica o ru\u00eddo surdo do tempo, mas aquilo que podemos entender, aquilo que nos interessa depois de passarem os anos. Interessa-nos a vida humana. Eu ent\u00e3o a reduzo a dimens\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Meu ouvido est\u00e1 sempre junto \u00e0 janela, escutando a rua. Espreito, ausculto um ritmo novo, um som novo. Uma m\u00fasica nova. A vida na rua \u00e9 pra l\u00e1 de interessante, e de terr\u00edvel, e de engra\u00e7ada, e de humana, mais do que em nossos c\u00edrculos em que a literatura se alimenta de literatura, e a pol\u00edtica de pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Eu escrevo sobre o ser humano no tempo e no cosmos, como Anna Akhm\u00e1tova: \u201cO homem nu, na terra nua\u201d. Aqui come\u00e7a a literatura. Por exemplo, no livro sobre as mulheres-soldado na guerra, <em>A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher<\/em>, interessavam-me aquelas perguntas eternas: Como uma pessoa pode ficar a s\u00f3s com a ideia de que ele pode matar outra pessoa? As pessoas morrem de uma forma t\u00e3o simples, e matam tamb\u00e9m de forma simples demais. Como eles podem viver com isso depois? E sobre isso fala uma mulher. Com certeza, ela tem uma vis\u00e3o pr\u00f3pria, nenhuma ideologia a subjuga por completo: \u201cTinha pena de uns e de outros. Voc\u00ea vai pelo campo depois do combate, os mortos est\u00e3o deitados, espalhados como a batata. E olham para o c\u00e9u\u201d. Talvez s\u00f3 no amor e junto da morte a pessoa \u00e9 capaz de sair desse c\u00edrculo. Eu fico vigiando esses momentos.<\/p>\n<p>Eu chamo meu g\u00eanero de \u201cromance de vozes\u201d. Podemos dizer que \u00e9 um romance conciliar. Como quer que seja, \u00e9 uma tentativa de encontrar uma forma romanesca nova.<\/p>\n<p><strong>TAG &#8211; Quando voc\u00ea se depara com os relatos dos sobreviventes da guerra, no que diz respeito ao seu m\u00e9todo de escrita, de que maneira os sintetiza e transforma em um conjunto de textos coerentes para o livro? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Svetlana &#8211;\u00a0<\/strong>Eu venho de uma fam\u00edlia de professores rurais. Todos foram professores, at\u00e9 a quarta gera\u00e7\u00e3o. Os professores de aldeia s\u00e3o pessoas singulares. Eles materializam o v\u00ednculo com a grande cultura nas pequenas aldeias. Eu nasci depois da segunda guerra, quando nas aldeias russas quase n\u00e3o havia homens. E eu ouvia as hist\u00f3rias das mulheres sobre a guerra. Isso era t\u00e3o mais forte do que aquilo que havia em casa nos livros&#8230; a casa inteira cheia de livros&#8230; tanto que cheguei a sentir rejei\u00e7\u00e3o pelos livros. Porque tanto as velhinhas como as mulheres jovens, que ficaram sem homens, falavam com tanta for\u00e7a, e isso era t\u00e3o aut\u00eantico, n\u00e3o era nada trabalhado pela fantasia alheia de ningu\u00e9m. E quando entrei na faculdade de jornalismo e viajei pelo pa\u00eds, eu me lembrava disso o tempo todo, me lembrava do tom dessas conversas. E eu pensei que a literatura deveria ir atr\u00e1s do tempo. Em nossa literatura existe a tradi\u00e7\u00e3o dos relatos orais, e eu tentei fazer o mesmo. Comecei pelos relatos femininos sobre a guerra em <em>A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher<\/em>.<\/p>\n<p>Hoje para mim a testemunha \u00e9 a personagem principal da literatura. Dizem-me que as lembran\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o nem hist\u00f3ria nem literatura. S\u00e3o simplesmente a vida suja e n\u00e3o purificada pela m\u00e3o do artista. A mat\u00e9ria prima da fala. Mas para mim \u00e9 tudo o contr\u00e1rio&#8230; \u00c9 justamente l\u00e1, na voz humana viva, na representa\u00e7\u00e3o viva da realidade, que est\u00e1 oculto o mist\u00e9rio de nossa presen\u00e7a aqui, l\u00e1 fica descoberta a tragicidade insuper\u00e1vel da vida. Seu caos e paix\u00e3o. Sua unicidade e incompreensibilidade.<\/p>\n<p>Eu fa\u00e7o meus livros a partir de centenas de detalhes, nuances, matizes. Podia acontecer que depois de um dia inteiro de conversa, sobrasse apenas uma frase. Mas que frase! \u201cEu fui para o front sendo t\u00e3o pequena, que at\u00e9 cresci por causa da guerra.\u201d<\/p>\n<p>Sabe, eu frequento uma pessoa&#8230; uma pessoa como um amigo. N\u00e3o \u00e9 de jeito nenhum uma entrevista, \u00e9 uma conversa sobre a vida, sobre tudo: sobre a blusa nova, sobre o amor, sobre os sofrimentos&#8230; \u00e9 sobre a vida. O que a pessoa entende, sabe, viu. A vida n\u00e3o est\u00e1 constitu\u00edda por alguma coisa grande. At\u00e9 aquilo que \u00e9 grande em nossa vida \u00e9 resultado de algo pequeno. Outra coisa \u00e9 que seja necess\u00e1ria certa magia, certo olhar. Eis o que \u00e9 o mais importante para mim. N\u00e3o reunir material, mas reunir uma filosofia. Isto \u00e9, olhar para as coisas que parecem corriqueiras, de uma forma completamente nova.<\/p>\n<p>Eu demoro para escrever meus livros. Cinco ou dez anos. Registro 500, 600 pessoas. Procuro uma pessoa abalada pelos acontecimentos, n\u00e3o um narrador banal. Para que uma pessoa responda de uma maneira nova, \u00e9 preciso interrog\u00e1-la de uma forma nova. Temos que falar n\u00e3o de Tchern\u00f3bil ou do Afeganist\u00e3o, mas da vida. Interessa-me n\u00e3o a informa\u00e7\u00e3o, mas o mist\u00e9rio. O mist\u00e9rio da vida.<\/p>\n<p>Qualquer hist\u00f3ria transparece a hist\u00f3ria da alma, as paix\u00f5es humanas ficam fora da hist\u00f3ria. Minha tarefa \u00e9 extra\u00ed-las da escurid\u00e3o, do desaparecimento. Eu lido com uma mentira dupla: com a mentira do totalitarismo e com a mentira da hist\u00f3ria como ci\u00eancia que limpa a vida at\u00e9 chegar aos par\u00e1grafos sem paix\u00e3o das apostilas de hist\u00f3ria. Minha vontade \u00e9 humanizar a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Como eu disse, chamo o g\u00eanero que escrevo de \u201cromance de vozes\u201d. Nunca vou me achar no direito de julgar e condenar. Eu tento entender.<\/p>\n<p><strong>TAG &#8211; O livro &#8220;As \u00faltimas testemunhas&#8221; cont\u00e9m passagens emocionantes, com relatos sens\u00edveis vivenciados por crian\u00e7as em uma \u00e9poca tr\u00e1gica. Imagine que mais de 25 mil leitores brasileiros ler\u00e3o tais mem\u00f3rias pela primeira vez, o que voc\u00ea diria a eles? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Svetlana &#8211;\u00a0<\/strong>Nos di\u00e1rios de Tolst\u00f3i est\u00e3o as seguintes palavras: \u201cEis que voc\u00ea entra em um hospital onde h\u00e1 muitos feridos. Est\u00e3o deitados por toda parte, at\u00e9 nos corredores, no ch\u00e3o. Os m\u00e9dicos n\u00e3o conseguem ajudar todos, h\u00e1 um cheiro horr\u00edvel. Tudo isso \u00e9 insuport\u00e1vel para o olho humano, mas observe as pessoas por separado, e voc\u00ea ter\u00e1 vontade de ajudar algu\u00e9m\u201d. Eu acho que Tolst\u00f3i est\u00e1 certo. Vivemos em um mundo em que h\u00e1 sofrimentos demais, e devemos ajudar. A compaix\u00e3o ensina a alma humana. Eu penso tamb\u00e9m que o sofrimento \u00e9 um tipo de informa\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, nos \u00e9 transmitido um certo conhecimento acerca do homem. \u00c9 o conhecimento acerca de como \u00e9 dif\u00edcil ser pessoa.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Pessoa pertencente \u00e0 chamada <em>intelligentsia<\/em>, compreendida como um grupo de pessoas que podem pertencer a diversas camadas sociais, mas que t\u00eam em comum o interesse pela reflex\u00e3o sobre os mais diversos e complexos problemas do ser humano e da sociedade.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Federalnyi Slujba Bezopasnosti \u2013 <\/em>Servi\u00e7o Federal de Seguran\u00e7a da Federa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia, que substituiu o KGB \u2013 <em>Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti <\/em>\u2013 Comit\u00ea Estatal de Seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Konstantin Tsiolk\u00f3vski, cientista russo reconhecido por seu trabalho pioneiro no estudo dos foguetes e da cosmon\u00e1utica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em julho de 2018, em comemora\u00e7\u00e3o aos 4 anos do clube, os assinantes da TAG Curadoria receberam o livro\u00a0As \u00faltimas testemunhas,\u00a0da Nobel de Literatura Svetlana Aleksi\u00e9vitch. A obra, at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita no Brasil, foi enviada em primeira m\u00e3o aos associados. A escritora bielorrussa concedeu uma entrevista exclusiva \u00e0 TAG. 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