{"id":9442,"date":"2018-12-27T18:12:33","date_gmt":"2018-12-27T21:12:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.taglivros.com\/bloghlg\/entrevista-adriana-lisboa-tradutora-de-existo-existo-existo\/"},"modified":"2018-12-27T18:12:33","modified_gmt":"2018-12-27T21:12:33","slug":"entrevista-adriana-lisboa-tradutora-de-existo-existo-existo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taglivros.com\/blog\/entrevista-adriana-lisboa-tradutora-de-existo-existo-existo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Adriana Lisboa, tradutora de \u201cExisto, existo, existo\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Adriana Lisboa \u00e9 escritora e tradutora. Carioca, mora atualmente em Austin, no estado norte-americano do Texas. Mestre em literatura brasileira e doutora em literatura comparada pela Uerj, j\u00e1 trabalhou como cantora de MPB e professora de m\u00fasica.<\/p>\n<p>Traduzida em mais de vinte pa\u00edses, ela recebeu o Pr\u00eamio Jos\u00e9 Saramago pelo romance <em>Sinfonia em branco<\/em> (2001) e apareceu na lista dos melhores livros do ano do jornal brit\u00e2nico <em>The Independent<\/em>, com a obra <em>Azul corvo<\/em> (2010). Al\u00e9m de seis romances, Adriana escreveu livros de poesia, livros infanto-juvenis e teve contos publicados em ve\u00edculos como <em>Modern Poetry in Translation<\/em> e <em>Granta<\/em>.<\/p>\n<p>Como tradutora, constam na sua bagagem liter\u00e1ria tradu\u00e7\u00f5es de Emily Bront\u00eb, Cormac McCarthy, <a href=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/livros-de-distopia-que-inspiraram-margaret-atwood-o-conto-da-aia\/\">Margaret Atwood<\/a>, Maurice Blanchot e Maggie O\u2019Farrell \u2013 esta \u00faltima, autora de <em>Existo, existo, existo<\/em>, enviado em novembro pelo clube <a href=\"https:\/\/site.taglivros.com\/ineditos\/\">In\u00e9ditos<\/a>. Leia uma entrevista feita especialmente para o blog da <a href=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/surgimento-do-clube-tag\/\">TAG <\/a>com Adriana Lisboa.<\/p>\n<p><strong>TAG &#8211; O que voc\u00ea mais gostou em <em>Existo, existo, existo<\/em> e na escrita de Maggie O\u2019Farrell?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Adriana Lisboa &#8211;<\/strong> Maggie O\u2019Farrell consegue duas grandes proezas neste livro. Uma delas \u00e9 manter a tens\u00e3o entre a emo\u00e7\u00e3o e o comedimento. O texto nunca \u00e9 banal, nunca trivializa o drama que est\u00e1 sendo relatado, mas ao mesmo tempo nunca deixa que resvale para o melodrama, nunca transborda. A outra fa\u00e7anha \u00e9 tocar aquilo que \u00e9 universal, que diz respeito a todos n\u00f3s, na narrativa de eventos e sentimentos muito pessoais. Nesse sentido, \u00e9 um livro extremamente generoso. O pr\u00f3prio umbigo \u00e9 uma armadilha em que caem muitos escritores de resto talentosos, que ao falar de si parecem estar realmente s\u00f3 querendo falar de si (e ao falar do outro tamb\u00e9m s\u00f3 falam de si). O\u2019Farrell faz o exato oposto. Ao falar de si, ela estende a m\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como foi o processo de tradu\u00e7\u00e3o do livro? Quais os principais obst\u00e1culos encontrados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Adriana &#8211;\u00a0<\/strong>Foi uma tradu\u00e7\u00e3o muito prazerosa, porque o livro \u00e9, digamos, uma boa companhia. \u00c0s vezes, dependendo do trabalho de tradu\u00e7\u00e3o, eu me sento diante da tela com uma certa relut\u00e2ncia; no caso de Existo, existo, existo foi o contr\u00e1rio. O principal desafio foi justamente transpor ao portugu\u00eas o equil\u00edbrio, a sobriedade mas a enorme densidade emocional (elegante, comedida) do texto.<\/p>\n<p><strong>\u201cRespirei fundo e escutei a velha fanfarronice do meu cora\u00e7\u00e3o. Existo, existo, existo.\u201d Como se deu a escolha de palavras para traduzir a frase mais c\u00e9lebre de <em>A redoma de vidro<\/em>, de Sylvia Plath? O que voc\u00ea achou da refer\u00eancia utilizada por Maggie O\u2019Farrell?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Adriana &#8211;\u00a0<\/strong>A refer\u00eancia \u00e9 perfeita, pois o livro trata justamente dessa insist\u00eancia (\u00e0s vezes quase prosaica) da vida diante da morte. O original em ingl\u00eas \u00e9 \u201cI took a deep breath and listened to the old brag of my heart. I am, I am, I am.\u201d As dificuldades aqui est\u00e3o nesse \u201cold brag\u201d e no \u201cI am, I am, I am\u201d que Maggie O\u2019Farrell usa no t\u00edtulo. No primeiro caso, \u201cbrag\u201d \u00e9 jact\u00e2ncia, fanfarronice, algo que o cora\u00e7\u00e3o diz para se gabar (de estar vivo). \u201cI am, I am, I am\u201d \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o literalmente dizendo que est\u00e1 ali, que existe, atrav\u00e9s de suas batidas. Recordo que o verbo \u201cto be\u201d em ingl\u00eas significa tanto \u201cser\u201d quanto \u201cestar\u201d. A tradu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m deveria servir para t\u00edtulo do livro, por isso optamos por \u201cExisto, existo, existo.\u201d<\/p>\n<p><strong>No t\u00edtulo original, o livro do m\u00eas se chama <em>I am, I am, I am \u2013 17 brushes with death<\/em>. Por voc\u00ea escolheu traduzir o t\u00edtulo para <em>Existo, existo, existo \u2013 17 trope\u00e7os na morte<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Adriana &#8211;\u00a0<\/strong>O t\u00edtulo foi escolhido numa conversa com os editores. Pensamos em algumas op\u00e7\u00f5es, mas \u201ctrope\u00e7os\u201d pareceu mais fiel \u00e0 ideia do acaso, a esse \u201cpassar de rasp\u00e3o\u201d por alguma coisa. Pensamos em \u201cesbarr\u00f5es\u201d tamb\u00e9m, mas um esbarr\u00e3o ou um encontr\u00e3o \u00e9 mais violento do que um mero \u201cbrush\u201d.<\/p>\n<p><strong>Quando e por voc\u00ea decidiu come\u00e7ar a trabalhar como tradutora? Voc\u00ea acha que a publica\u00e7\u00e3o do seu primeiro livro<em>, Os fios da mem\u00f3ria<\/em> (1999), e o seu reconhecimento como escritora facilitaram sua entrada no mercado da tradu\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Adriana &#8211;\u00a0<\/strong>Comecei a trabalhar como tradutora h\u00e1 dezoito anos. Estava tentando me viabilizar financeiramente na \u00e1rea liter\u00e1ria, tinha acabado de publicar meu primeiro romance e estava tamb\u00e9m come\u00e7ando o mestrado em literatura na Uerj, depois de uma gradua\u00e7\u00e3o em m\u00fasica. Tinha feito o curso mais c\u00e9lebre de tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca, com o finado Daniel Brilhante de Brito, no Rio. Acho que a minha entrada no mercado teve tr\u00eas \u201cfacilitadores\u201d &#8211; o fato de eu ser uma escritora j\u00e1 publicada, de estar fazendo mestrado em literatura e de ter um diploma do \u201cCurso do Daniel\u201d, que ademais escreveu uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o muito generosa. Da\u00ed por diante, foi arrega\u00e7ar as mangas e trabalhar.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea traduziu desde <em>O morro dos ventos uivantes<\/em>, da inglesa Emily Bront\u00eb (1847), at\u00e9<em> Uma voz vinda de outro lugar<\/em> (1992), do franc\u00eas Maurice Blanchot. Durante a sua carreira como tradutora, quais foram os livros que voc\u00ea teve mais dificuldade para traduzir? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Adriana &#8211;\u00a0<\/strong><em>O morro dos ventos uivantes<\/em> e <em>Jane Eyre<\/em> (este de outra irm\u00e3 Bront\u00eb, a Charlotte) ofereceram, sem d\u00favida, desafios. S\u00e3o hist\u00f3rias passadas e narradas no s\u00e9culo dezenove. O mais dif\u00edcil, penso, \u00e9 encontrar uma esp\u00e9cie de \u201cneutralidade\u201d de tom que n\u00e3o transforme o texto numa tentativa de reproduzir a linguagem da \u00e9poca (isso poderia soar quase burlesco) nem deixar marcas \u00f3bvias da linguagem de hoje. Ou seja, \u00e9 quase como se a tradu\u00e7\u00e3o tivesse que encontrar uma esp\u00e9cie de tempo artificial. Por outros motivos (sobretudo pela sofistica\u00e7\u00e3o do seu pensamento), Blanchot tamb\u00e9m foi desafiador. E a tradu\u00e7\u00e3o de poesia, mesmo de um idioma irm\u00e3o como o espanhol, a que venho me dedicando bastante, sempre \u00e9 cheia de armadilhas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acha que a sua rotina como tradutora \u00e9 complementar \u00e0 de escritora? O que voc\u00ea mais gosta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s duas atividades? <\/strong><\/p>\n<p><strong>Adriana &#8211;\u00a0<\/strong>As duas atividades podem ser complementares, se eu conseguir administrar bem o meu tempo (nem sempre consigo). Traduzir \u00e9 uma forma de ler minuciosamente, e nesse sentido \u00e9 quase como fazer uma esp\u00e9cie de oficina de cria\u00e7\u00e3o com o autor. Por isso tenho me dedicado tanto, por conta pr\u00f3pria e sem necessariamente ser paga, \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de poesia. O que a gente aprende traduzindo um Octavio Paz, um Lezama Lima ou um Saint-John Perse n\u00e3o \u00e9 brincadeira.<\/p>\n<p><strong>Atualmente, quem s\u00e3o seus escritores e tradutores preferidos? Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o, quais nomes influenciam na sua escrita?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Adriana &#8211;\u00a0<\/strong>Acho que as duas perguntas podem ter uma mesma resposta! Voltei recentemente \u00e0 obra de Octavio Paz, que \u00e9 um gigante, e que nunca deixa de me impressionar. Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 meu \u201cautor de cabeceira,\u201d sempre, e aqui cito seu tradutor ao alem\u00e3o, Curt Meyer-Clason (falecido em 2012) e a atual tradutora ao ingl\u00eas de Grande sert\u00e3o, Alison Entrekin, como dois nomes essenciais. Rubens Figueiredo \u00e9 um dos meus autores (e tradutores) preferidos no Brasil. Alguns outros nomes que preciso citar, um pouco desordenadamente, diante dessa pergunta sempre dif\u00edcil: Manuel Bandeira, Emily Dickinson, Kazuo Ishiguro, Alice Munro, Mariana Ianelli, Antonio C\u00edcero, Rita Dove, Ana Luisa Amaral (outra magnifica tradutora, ali\u00e1s, que trabalha com sonetos de Shakespeare, coisa de gente grande).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriana Lisboa \u00e9 escritora e tradutora. Carioca, mora atualmente em Austin, no estado norte-americano do Texas. Mestre em literatura brasileira e doutora em literatura comparada pela Uerj, j\u00e1 trabalhou como cantora de MPB e professora de m\u00fasica. 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