{"id":9385,"date":"2019-08-28T11:59:41","date_gmt":"2019-08-28T14:59:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.taglivros.com\/bloghlg\/entrevista-com-carol-bensimon\/"},"modified":"2019-08-28T11:59:41","modified_gmt":"2019-08-28T14:59:41","slug":"entrevista-com-carol-bensimon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taglivros.com\/blog\/entrevista-com-carol-bensimon\/","title":{"rendered":"Entrevista com Carol Bensimon"},"content":{"rendered":"<p>Quase dois anos depois de indicar ao clube o romance <em>A pra\u00e7a do diamante<\/em> (1962), da catal\u00e3 Merc\u00e8 Rodoreda, a escritora <strong>Carol Bensimon<\/strong> retorna \u00e0s p\u00e1ginas da <a href=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/surgimento-do-clube-tag\/\">TAG <\/a>como autora do livro do m\u00eas. Com a escolha de Noemi Jaffe, ela se junta ao espanhol Javier Cercas e ao irland\u00eas Roddy Doyle no seleto grupo que j\u00e1 ocupou as duas posi\u00e7\u00f5es (curador e autor do m\u00eas) na hist\u00f3ria do clube \u2013 al\u00e9m de ter feito o caminho inverso dos outros dois, fica com ela o posto de primeira brasileira a figurar nessa lista especial.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-3808\" src=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/P\u00c3\u0093S_CURADORIA_AGOSTO-12082019-DSC_7556.jpg\" alt=\"\" width=\"2167\" height=\"1446\" \/><\/p>\n<p>Tradutora, romancista e contista, Bensimon nasceu em Porto Alegre em 1982 e \u00e9 destaque no cen\u00e1rio liter\u00e1rio brasileiro h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, sendo um dos principais nomes da nova gera\u00e7\u00e3o de escritores contempor\u00e2neos. Em 2012, foi inclu\u00edda no volume <em>Os melhores jovens escritores brasileiros<\/em> da revista <em>Granta.<\/em> Al\u00e9m de escrever e traduzir obras de fic\u00e7\u00e3o, contribuiu com contos e ensaios para peri\u00f3dicos como o <em>Estado de S. Paulo, O Globo, Folha de S. Paulo, Superinteressante, Piau\u00ed <\/em>e para a editora norte-americana <em>McSweeney&#8217;s<\/em>, trabalhou em roteiros para audiovisual, foi colunista do Blog da Companhia e j\u00e1 colaborou em algumas edi\u00e7\u00f5es da revista da TAG na se\u00e7\u00e3o <em>Leia depois de ler.<\/em><\/p>\n<p>Em 2018, Bensimon conquistou o Pr\u00eamio Jabuti de melhor romance com sua publica\u00e7\u00e3o mais recente, <em>O clube dos jardineiros de fuma\u00e7a<\/em> (2017), obra que cruza personagens hist\u00f3ricos e ficcionais utilizando como pano de fundo o tema do cultivo e com\u00e9rcio de maconha na Calif\u00f3rnia, onde a planta recentemente foi legalizada. Al\u00e9m de ter descoberto em Mendocino a inspira\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que deu origem a <em>Jardineiros<\/em>, Carol encontrou na calmaria do pequeno condado o seu lar, onde hoje reside.<\/p>\n<p><strong>TAG \u2013 Em <em>A pra\u00e7a do diamante<\/em>, livro que voc\u00ea indicou para a TAG em dezembro de 2017, temos uma personagem muito forte, a Colometa. Desde as \u00faltimas d\u00e9cadas, percebemos um movimento de criar personagens mulheres com mais complexidade, como as do seu livro. Como a aus\u00eancia e a crescente presen\u00e7a de personagens assim na literatura influenciou sua vida como leitora e escritora?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carol Bensimon \u2013<\/strong> At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, a pr\u00f3pria sociedade n\u00e3o dava muito espa\u00e7o para essa complexidade feminina aparecer na vida real, que dir\u00e1 ent\u00e3o na literatura. Na minha vida de leitora, \u00e9 verdade que cruzei com muito mais personagens homens do que mulheres. \u00c9 inevit\u00e1vel que isso aconte\u00e7a porque sempre houve mais homens escrevendo, mas isso nunca me desencorajou. Desde cedo quis escrever fic\u00e7\u00e3o. Fico feliz agora que cada vez mais mulheres estejam escrevendo, e que a consequ\u00eancia disso seja a constru\u00e7\u00e3o de personagens femininas com mais nuances. \u00c9 muito bom poder contribuir com essa mudan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>A literatura que retrata a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ tem crescido bastante nesses \u00faltimos anos, tanto em obras contempor\u00e2neas quanto em mais antigas, resgatadas com novas edi\u00e7\u00f5es e tradu\u00e7\u00f5es. Como voc\u00ea enxerga esse movimento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carol \u2013<\/strong> Isso \u00e9 muito recente, pelo menos no Brasil. Acho que aconteceu de forma mais intensa nos \u00faltimos tr\u00eas ou quatro anos, e \u00e9 extremamente positivo para a diversidade da nossa literatura. Mas, quando Todos n\u00f3s ador\u00e1vamos caub\u00f3is Carol Bensimon Entrevista com A indica\u00e7\u00e3o do m\u00eas 15 foi publicado, em 2013, o cen\u00e1rio era outro. De toda forma, quando escrevo um livro, n\u00e3o estou pensando em nada disso, quero dizer, em como a narrativa se encaixa no contexto atual, no que pode haver de pol\u00edtico nela, etc. Acredito que a escrita de um romance deve partir de um desejo que vem de dentro, n\u00e3o de fora. Minha vontade era apenas retratar uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua entre duas meninas, cheia de desencontros e hesita\u00e7\u00f5es, temperada com o frescor e a incerteza dos vinte e poucos anos.<\/p>\n<p><strong>Como foi escrever <em>Todos n\u00f3s ador\u00e1vamos caub\u00f3is<\/em>? Quais foram as suas inspira\u00e7\u00f5es? Qual era a sua rotina de escrita?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carol \u2013<\/strong> Foi intenso. Eu tinha voltado de um per\u00edodo de dois anos em Paris, onde fui fazer um doutorado que n\u00e3o terminei. Queria usar essa experi\u00eancia de sair do pa\u00eds de alguma maneira, mas, ao mesmo tempo, tamb\u00e9m tinha vontade de explorar a paisagem do meu estado natal. Ent\u00e3o fui fazer algumas viagens de carro como pesquisa para o futuro romance. Acho que, no livro, o que vemos \u00e9 tanto uma conex\u00e3o quanto uma desconex\u00e3o das personagens em rela\u00e7\u00e3o a essa paisagem e essa cultura. O entorno \u00e9, ao mesmo tempo, familiar e completamente estranho. E aquela jornada, para Cora, significa essencialmente uma chance de se reaproximar da Julia. Minhas inspira\u00e7\u00f5es da vida real foram essas: cen\u00e1rios carregados de certa melancolia, uma cidadezinha parada no tempo nos pampas ga\u00fachos e algumas rela\u00e7\u00f5es confusas que vivi na \u00e9poca da faculdade. N\u00e3o lembro o que estava lendo quando escrevi o livro, ent\u00e3o n\u00e3o poderia dizer o que me inspirou em termos de literatura. Mas lembro que escutava muito Radio Dept., Wild Nothing e Craft Spells. Foram bandas que me ajudaram a construir a atmosfera do livro. Quanto \u00e0 minha rotina de escrita, sou sempre muito disciplinada quando estou trabalhando em um romance. Acordo cedo, fa\u00e7o meu caf\u00e9 da manh\u00e3, escrevo, paro para almo\u00e7ar, e continuo escrevendo at\u00e9 o fim da tarde.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-3807\" src=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/P\u00c3\u0093S_CURADORIA_AGOSTO-12082019-DSC_7506.jpg\" alt=\"\" width=\"2996\" height=\"2000\" \/><\/p>\n<p><strong><em>Thelma &amp; Louise<\/em> \u00e9 uma forte refer\u00eancia para seu romance. De que forma o cinema dialoga com o livro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carol \u2013<\/strong> Vi muitos<em> road movies<\/em> cl\u00e1ssicos no in\u00edcio do projeto do livro, antes de propriamente sentar para escrever. E <em>Thelma &amp; Louise<\/em> sempre foi um favorito desde a primeira vez que assisti ao filme, nos anos 90. \u00c9 tamb\u00e9m um dos \u00fanicos do g\u00eanero que coloca duas mulheres no centro da trama. Sou bastante influenciada pelo cinema de modo geral. Acho que minha literatura \u00e9 bem visual, sinto que estou criando imagens com palavras quando escrevo, e costumo pensar que o pr\u00f3prio processo de escrita, o pr\u00f3prio encadeamento das frases em um texto liter\u00e1rio, pode ser muito parecido com o processo de montagem do cinema.<\/p>\n<blockquote>\n<p>&#8220;Acredito que <em>Caub\u00f3is<\/em> \u00e9 um romance sobre fazer o que se quer, independente da opini\u00e3o dos outros.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Pergunta inevit\u00e1vel: o quanto de Carol h\u00e1 em Cora e o quanto de Carol h\u00e1 em Julia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carol \u2013<\/strong> Essa \u00e9 dif\u00edcil! Eu n\u00e3o escrevo hist\u00f3rias autobiogr\u00e1ficas. At\u00e9 teria coisas bem dram\u00e1ticas e imprevis\u00edveis para contar se escrevesse, mas n\u00e3o me sentiria \u00e0 vontade para fazer isso e, al\u00e9m do mais, gosto da liberdade que a fic\u00e7\u00e3o d\u00e1. Estou no livro de uma maneira mais indireta. Criei a hist\u00f3ria das duas personagens baseada em muitos recortes de experi\u00eancias e sensa\u00e7\u00f5es. Uma estudante de moda que encontrei umas tr\u00eas vezes em Paris, um passeio por um bairro espec\u00edfico, lembran\u00e7as de pessoas que conheci na faculdade, uma estadia em um hotel de Bag\u00e9 e outro em S\u00e3o Francisco de Paula em contextos completamente diferentes, enfim, h\u00e1 um mosaico a\u00ed, e as pe\u00e7as aos poucos v\u00e3o se encaixando como na escrita de qualquer livro de fic\u00e7\u00e3o. Mas eu diria que h\u00e1 mais de Cora em mim do que de Julia simplesmente porque a Cora vem de um contexto urbano, como eu. Tamb\u00e9m porque tem mais certezas sobre sua sexualidade.<\/p>\n<p><strong>Em uma recente troca com Caetano Galindo voc\u00eas tecem uma longa e pertinente discuss\u00e3o sobre quest\u00f5es ligadas ao uso da l\u00edngua. O quanto essa experi\u00eancia de morar fora tem impactado no modo como voc\u00ea escreve e enxerga a literatura contempor\u00e2nea brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carol \u2013<\/strong> Acho que eram quest\u00f5es que eu j\u00e1 me colocava antes de mudar de pa\u00eds. Nunca me senti \u201cherdeira\u201d da tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria brasileira. Leio muitos dos meus contempor\u00e2neos, isso sim, mas pouca coisa das gera\u00e7\u00f5es anteriores. Ent\u00e3o percebi que essa dist\u00e2ncia que eu sentia se explicava sobretudo pelo uso da linguagem. O que est\u00e1vamos apontando nessa discuss\u00e3o, eu e o Caetano Galindo, \u00e9 que, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, a dist\u00e2ncia entre o portugu\u00eas falado e o portugu\u00eas \u201cliter\u00e1rio\u201d era abissal. E isso me incomodava. Pego alguns livros antigos e eles me soam beletristas, artificiais. Meu projeto de literatura sempre foi o contr\u00e1rio disso. Sei que essa n\u00e3o \u00e9 uma discuss\u00e3o nova, mas, em todo o caso, o n\u00f3 n\u00e3o me parece resolvido. Segundo o Galindo, minha gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 tendo que inventar uma nova linguagem liter\u00e1ria. Pode soar pretensioso dizer isso, mas, ei, foi o Galindo quem disse, n\u00e3o eu!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-3809\" src=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/P\u00c3\u0093S_CURADORIA_AGOSTO-12082019-DSC_7516.jpg\" alt=\"\" width=\"2571\" height=\"1716\" \/><\/p>\n<p><strong>Muitas pessoas falam em \u201cencontrar seu lugar no mundo\u201d. Voc\u00ea acredita\u00a0que Mendocino \u00e9 o seu lugar? Como \u00e9 viver (e escrever) na Calif\u00f3rnia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carol \u2013<\/strong> Hoje posso afirmar que \u00e9. Amanh\u00e3, quem sabe o que vai acontecer? Senti uma atra\u00e7\u00e3o muito forte por esse lugar desde a primeira vez em que pisei aqui, e isso foi se intensificando. Quando terminei de escrever O clube dos jardineiros de fuma\u00e7a, depois de duas temporadas em Mendocino, estava oficialmente apaixonada. Acho que eu n\u00e3o poderia voltar para a mesma vida que eu tinha em Porto Alegre depois disso, e me mudar de cidade parecia insuficiente, como se todas as cidades fossem um pouco parecidas, sabe? O que eu precisava mesmo era me afastar dessa l\u00f3gica urbana. \u00c9 um privil\u00e9gio viver aqui, sem d\u00favida. A natureza \u00e9 muito impressionante e me toca em algum ponto que at\u00e9 ent\u00e3o eu desconhecia. O sil\u00eancio para escrever tamb\u00e9m \u00e9 maravilhoso.<\/p>\n<p><strong>Qual o seu recado para os 30 mil associados que ir\u00e3o ler seu romance pela primeira vez?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carol \u2013<\/strong> Tenho muito carinho por esse livro. Espero que voc\u00eas sintam que est\u00e3o viajando junto com a Cora e a Julia. Quando leitores me escrevem dizendo \u201cvoc\u00ea me deixou com muita vontade de viajar!\u201d, acho que esse \u00e9 o maior elogio que posso receber. \u00c9 um livro com boas energias. Sei que sou suspeita para falar, mas, enfim, acredito que \u00e9 um romance sobre fazer o que se quer, independentemente da opini\u00e3o dos outros. A vida \u00e9 curta.<\/p>\n<h2><strong>A estante de Carol Bensimon<\/strong><\/h2>\n<p><strong>O primeiro livro que li:<\/strong> <em>O \u00faltimo mam\u00edfero do Martinelli<\/em>, de Marcos Rey<\/p>\n<p><strong>O livro que estou lendo:<\/strong> <em>L\u00e1 n\u00e3o existe l\u00e1<\/em>, de Tommy Orange<\/p>\n<p><strong>O livro que eu gostaria de ter escrito:<\/strong> <em>A Fugitiva<\/em>, de Alice Munro<\/p>\n<p><strong>O \u00faltimo livro que me fez chorar:<\/strong> <em>N\u00e3o me abandone jamais,<\/em> de Kazuo Ishiguro<\/p>\n<p><strong>O \u00faltimo livro que me fez rir:<\/strong> <em>Less<\/em>, de Andrew Sean Greer<\/p>\n<p><strong>O livro que eu n\u00e3o consegui terminar:<\/strong> <em>Ulisses<\/em>, de James Joyce<\/p>\n<p><strong>O livro que eu dou de presente:<\/strong><em> Uma casa do fim do mundo<\/em>, de Michael Cunningham<\/p>\n<p><strong>O livro que mudou a minha vida:<\/strong><em> O Som e a f\u00faria<\/em>, de William Faulkner, e <em>Tr\u00eas tristes tigres<\/em>, de Guillermo Cabrera Infante<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase dois anos depois de indicar ao clube o romance A pra\u00e7a do diamante (1962), da catal\u00e3 Merc\u00e8 Rodoreda, a escritora Carol Bensimon retorna \u00e0s p\u00e1ginas da TAG como autora do livro do m\u00eas. 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