{"id":9321,"date":"2020-06-04T16:25:31","date_gmt":"2020-06-04T19:25:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.taglivros.com\/bloghlg\/entrevista-jarid-arraes-e-a-terceira-vida-de-grange-copeland\/"},"modified":"2020-06-04T16:25:31","modified_gmt":"2020-06-04T19:25:31","slug":"entrevista-jarid-arraes-e-a-terceira-vida-de-grange-copeland","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taglivros.com\/blog\/entrevista-jarid-arraes-e-a-terceira-vida-de-grange-copeland\/","title":{"rendered":"Entrevista: Jarid Arraes e &#8220;A terceira vida de Grange Copeland&#8221;"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p>\u201cA realidade vai al\u00e9m dos nossos enquadramentos.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Jarid Arraes<\/strong> se p\u00f5e no mundo com a vis\u00e3o de uma diva pop e a sensibilidade do sert\u00e3o. A curadora do m\u00eas conversou por e-mail com a TAG sobre sua viv\u00eancia na literatura, sobre descobrir escritoras negras e sobre tudo aquilo que <a href=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/quem-e-alice-walker-uma-das-grandes-escritoras-norte-americanas\/\">Alice Walker<\/a> pode nos ensinar.<\/p>\n<p><strong>TAG \u2014 Queria come\u00e7ar perguntando como voc\u00ea se descobriu escritora. Como foi esse processo de chegar \u00e0 propor\u00e7\u00e3o ideal de &#8220;Cariri com Lady Gaga&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p>Jarid Arraes \u2014 Um dos primeiros contatos que tive com a literatura aconteceu na garupa de uma moto, quando meu pai declamou pra mim versos de dois poemas. Tinha onze anos e ri quando ouvi \u201cno meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho\u201d e \u201capedreja essa m\u00e3o vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija\u201d. Passei muitos dias pensando em como a poesia podia ser tantas coisas ao mesmo tempo. Um poema sobre um porquinho-da-\u00edndia (que despertou a conversa), uma repeti\u00e7\u00e3o sobre uma pedra no caminho, ou intensa, nojenta. Linda. Me apaixonei pela poesia de um jeito muito profundo, at\u00e9 hoje \u00e9 minha linguagem liter\u00e1ria favorita.<\/p>\n<p>Cresci na familiaridade do cordel, j\u00e1 que meu av\u00f4 e meu pai s\u00e3o cordelistas e xilogravadores. O cordel foi muito importante para que a literatura soasse como um caminho interessante e para que eu come\u00e7asse a escrever; ainda que por muito tempo eu n\u00e3o compartilhasse. Minha m\u00e3e foi fundamental; era professora e me ensinou a ler antes do tempo esperado da escola. Ela lia pra mim quando eu era bem pequena e eu decorava as hist\u00f3rias e contava pra ela com as mesmas palavras. Minha fam\u00edlia, de formas diferentes, me estimulou para que eu me relacionasse de maneira positiva com as letras e a literatura. E por isso digo que escrever n\u00e3o \u00e9 um dom, \u00e9 uma intimidade que voc\u00ea vai pegando. Ent\u00e3o eu me descobri escritora quando percebi que eu tinha intimidade com a escrita. Mas meu processo de descoberta e de come\u00e7ar a compartilhar o que eu escrevia teve muitas faces. Uma delas, a Lady Gaga.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cMe sinto livre para aproveitar cada coisa no momento presente.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quando fui convidada pra Flip, a Folha me chamou para escrever sobre uma obra de arte que me impactou na vida, e eu escrevi sobre a Lady Gaga. Nossa! Recebi perguntas e at\u00e9 questionamentos meio indignados. Mas, como eu falo no artigo, a Lady Gaga me inspira criativamente de muitas formas. A cada nova \u201cera\u201d sua, ela constr\u00f3i novas personagens e narrativas. E sempre \u00e9 tudo muito coeso. Ela conta hist\u00f3rias com suas personagens, que s\u00e3o muitas vezes bizarras, estranhas. E esse \u201cestranho\u201d sempre me encantou na arte. Foi a estranheza da poesia, declamada na garupa da moto, que me fez querer a literatura. Foi a estranheza da Lady Gaga que me atraiu de forma magn\u00e9tica e, gratamente, me levou at\u00e9 uma artista maravilhosa. O cordel tamb\u00e9m tem sua aura de estranheza, com narrativas fant\u00e1sticas. E as xilogravuras do meu av\u00f4 sempre me impressionavam, com muitas bestas e muitos riscos marcantes. Tive um imenso privil\u00e9gio por ter crescido cercada por tantas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas da nossa dita cultura popular.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se eu tenho um balan\u00e7o entre o sert\u00e3o do Cear\u00e1, o Cariri e a Lady Gaga. A prosa e a poesia. A poesia no geral e isso tudo. Mas me sinto livre para aproveitar cada coisa no momento presente. E me sinto feliz porque tenho essa mistura de refer\u00eancias, sonoridades, texturas.<\/p>\n<p><strong>Na Flip de 2019, voc\u00ea participou de uma mesa com a Carmen Maria Machado e disse que se emocionou muito quando, na adolesc\u00eancia, descobriu que havia escritoras negras ao conhecer Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Como \u00e9 que foi isso?<\/strong><\/p>\n<p>Durante toda a minha descoberta liter\u00e1ria, eu s\u00f3 tive acesso a livros escritos por homens brancos. Pegava livros com meu pai e na biblioteca muito pequena da escola. Li coisas incr\u00edveis. Drummond, Ferreira Gullar, Leminski, Augusto dos Anjos, Tolkien. Meu acesso a livros escritos por escritoras negras s\u00f3 veio quando eu j\u00e1 tinha dezenove anos, comecei a pensar sobre machismo, racismo, e ent\u00e3o me perguntei por que n\u00e3o conhecia mulheres negras que tinham feito grandes coisas na nossa Hist\u00f3ria. Comecei, claro, pela literatura. E foi a\u00ed que encontrei os Cadernos Negros e a Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Encontrar a Concei\u00e7\u00e3o foi um momento muito emocionante, porque eu n\u00e3o sabia, conscientemente, que a aus\u00eancia de mulheres negras escritoras nas minhas refer\u00eancias era uma esp\u00e9cie de bloqueio pra mim. Um tipo de impedimento para que eu enxergasse como poss\u00edvel o meu pr\u00f3prio caminho como escritora. Junto com a Concei\u00e7\u00e3o, vieram outras. Esmeralda Ribeiro, Miriam Alves, Toni Morrison, Maya Angelou, Alice Walker. Minhas primeiras refer\u00eancias. As primeiras refer\u00eancias de muita gente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_4779\" aria-describedby=\"caption-attachment-4779\" style=\"width: 3000px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-4779 size-full\" src=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/AMBIENTADA_CURADORIA22052020-22052020-DSC_5942.jpg\" alt=\"\" width=\"3000\" height=\"2003\" srcset=\"https:\/\/taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/AMBIENTADA_CURADORIA22052020-22052020-DSC_5942.jpg 2048w, https:\/\/taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/AMBIENTADA_CURADORIA22052020-22052020-DSC_5942-300x200.jpg 300w, https:\/\/taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/AMBIENTADA_CURADORIA22052020-22052020-DSC_5942-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/AMBIENTADA_CURADORIA22052020-22052020-DSC_5942-768x513.jpg 768w, https:\/\/taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/AMBIENTADA_CURADORIA22052020-22052020-DSC_5942-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/AMBIENTADA_CURADORIA22052020-22052020-DSC_5942-150x100.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 3000px) 100vw, 3000px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4779\" class=\"wp-caption-text\">Kit de maio de 2020 da<a href=\"https:\/\/site.taglivros.com\/curadoria\/\"> TAG Curadoria<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>E a sua rela\u00e7\u00e3o com Alice Walker? O que motivou sua indica\u00e7\u00e3o de <em>A terceira vida de Grange Copeland<\/em> para a TAG? O que voc\u00ea espera que essa hist\u00f3ria ensine ao leitor?<\/strong><\/p>\n<p>Alice Walker \u00e9 uma grande e premiada escritora. Muita gente conhece <em>A cor p\u00farpura<\/em>, pelo pr\u00f3prio livro, pelo filme ou pelo musical. E como <em>A cor p\u00farpura<\/em> \u00e9 esse imenso cl\u00e1ssico do nosso tempo, achei que seria maravilhoso termos o primeiro livro escrito por Alice Walker \u2013 <em>A terceira vida de Grange Copeland<\/em> \u2013, que era in\u00e9dito no Brasil at\u00e9 essa indica\u00e7\u00e3o para a TAG. Meus outros motivos transitam entre os temas e a pr\u00f3pria autora. Como eu disse, Alice Walker foi uma das primeiras escritoras negras que li, e sei que muitas pessoas tamb\u00e9m podem dizer o mesmo. Tenho muita admira\u00e7\u00e3o por ela, n\u00e3o s\u00f3 como autora, mas como pensadora, como teve coragem de falar sobre tantos temas controversos na sociedade e dentro da pr\u00f3pria comunidade negra nos EUA, como bissexualidade.<\/p>\n<p>Espero que <em>A terceira vida de Grange Copeland<\/em> seja lido pelos leitores com fluidez e paci\u00eancia. Espero que esse livro nos ensine a olhar o mundo com mais compreens\u00e3o de que a realidade vai al\u00e9m dos nossos enquadramentos. E que, mesmo assim, temos que nos movimentar para que ela seja melhor.<\/p>\n<p><strong>Acho que um dos temas desse livro \u00e9 o conhecimento como forma de emancipa\u00e7\u00e3o e possibilidade de futuro para as minorias, mas em especial para as mulheres \u2013 como se v\u00ea claramente no caso de Mem, que tem seu futuro frustrado pela viol\u00eancia de Brownfield, mas tamb\u00e9m de Ruth. Queria que voc\u00ea falasse um pouco disso pra gente.<\/strong><\/p>\n<p>Concordo que o livro fala muito sobre a vida roubada, o futuro roubado. \u00c9 muito doloroso, muito feio e extremamente desconfort\u00e1vel olhar t\u00e3o de perto como acontece uma cadeia de viol\u00eancia. Como um trauma come\u00e7a e bate contra algu\u00e9m em posi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil assistir a quem foi abusado se tornar abusador. Penso na incr\u00edvel escrita de Alice Walker, que trouxe tudo isso de forma t\u00e3o conturbada e sens\u00edvel para a literatura, e 9 tamb\u00e9m no quanto podemos refletir, de forma solit\u00e1ria, sobre todos os temas que aparecem no livro. Eu acho que precisamos de introspec\u00e7\u00e3o, que paci\u00eancia para refletir \u00e9 fundamental, e que esse livro pede isso. Ele \u00e9 muito importante para quem j\u00e1 pondera sobre racismo, machismo, abuso, rela\u00e7\u00f5es familiares, traumas, sociedade, educa\u00e7\u00e3o, mas para quem n\u00e3o gosta desses papos tamb\u00e9m. \u00c9 uma chance para sentir muitas coisas. Eu acho que voc\u00ea pode sair uma pessoa bastante diferente depois dessa leitura e ter uma compreens\u00e3o mais refinada sobre o sofrimento humano. Eu n\u00e3o seria capaz de falar algo \u2013 aqui e agora &#8211; sobre essas quest\u00f5es, porque n\u00e3o me pareceria \u00e0 altura do que eu realmente pensei e senti enquanto lia <em>A terceira vida de Grange Copeland.<\/em> \u00c9 claro que precisamos conversar sobre racismo e machismo, combat\u00ea-los, ainda vivemos as consequ\u00eancias da escravid\u00e3o, e h\u00e1 estat\u00edsticas e estudos, mas voc\u00eas j\u00e1 leram <em>A terceira vida de Grange Copeland<\/em>? Voc\u00eas sentiram raiva, confus\u00e3o e acharam triste e n\u00e3o acreditaram e argumentaram consigo mesmos e pensaram em parar em algum momento?<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-4778 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/JaridArraesCimento-7-scaled.jpeg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1707\" \/><\/p>\n<p><strong>Da mesma forma, naquela mesma mesa da Flip, a Carmen disse que &#8220;a literatura \u00e9 a sobreviv\u00eancia para as mulheres&#8221;. Acho que isso vale tanto para a leitura quanto para a escrita, n\u00e3o? O que sua experi\u00eancia como escritora, leitora e mentora de outras escritoras lhe ensinou sobre isso?<\/strong><\/p>\n<p>Entendo que uma das quest\u00f5es importantes nisso \u00e9 reconhecer em outra mulher uma chama que tamb\u00e9m parte de voc\u00ea, saber que voc\u00ea n\u00e3o tem que reagir sozinha, h\u00e1 outras que v\u00e3o reagir ao seu lado. A literatura tem essa capacidade lind\u00edssima de aproximar pessoas imensamente diferentes, porque n\u00f3s nos encontramos na qualidade humana que nos une. Mesmo quando o personagem \u00e9 um elfo do sexo masculino, eu ainda encontro nele muita coisa de mim. E o mesmo vale para uma personagem mulher e negra das d\u00e9cadas p\u00f3s-escravid\u00e3o nos EUA, como a Alice Walker escreveu; um homem pode encontrar nessa personagem caracter\u00edsticas que tamb\u00e9m s\u00e3o suas. N\u00f3s passamos muito tempo buscando humanidade em n\u00f3s e nos outros. Falhando tamb\u00e9m, \u00e9 claro. Mas vejo na literatura essa pulsa\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte. Eu sei por que existem grupos de leitura de livros escritos por mulheres, grupos de escritoras e eventos voltados para ouvir autoras. Porque estamos preenchendo lacunas de humanidade. H\u00e1 muitos que sentem dificuldade de enxergar mulheres como t\u00e3o humanas quanto, muitos que n\u00e3o conseguem ler um livro escrito por uma mulher e ter a percep\u00e7\u00e3o de que aquela obra \u00e9 t\u00e3o universal quanto um livro escrito por um homem. Mas a literatura sempre foi uma ferramenta de exist\u00eancia, \u00e9 justo e previs\u00edvel que as mulheres utilizem a literatura como plataforma para afirmar a exist\u00eancia. A exist\u00eancia da escrita, da cria\u00e7\u00e3o, da voz, da coletividade e da individualidade.<\/p>\n<p><strong>E como isso se relaciona com o que voc\u00ea nos traz em <em>Redemoinho em dia quente<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p>Posso dizer que o <em>Redemoinho em dia quente<\/em> \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia em v\u00e1rios sentidos. Sabe, mesmo depois que me tornei escritora, mesmo depois que publiquei tr\u00eas livros, os meus pr\u00f3prios livros ainda n\u00e3o estavam acess\u00edveis no Cariri. Ent\u00e3o eu quis voltar toda a minha energia criativa para minhas ra\u00edzes. Tive essa ideia de um livro de contos com protagonistas e narradoras mulheres do sert\u00e3o do Cear\u00e1, mostrando o Cariri pelos olhos dessas mulheres. E eu n\u00e3o escrevi um sert\u00e3o de ch\u00e3o rachado e caveira de vaca. Cansei dessa imagem que tanta gente tem como \u00fanica verdade de tanto ser contada de novo e de novo. Escrevi o sert\u00e3o onde eu cresci e as personagens que surgiram a partir das mulheres de l\u00e1. Diferentes, diversas, idosas, jovens, de meia-idade, crian\u00e7as, religiosas, questionadoras, bizarras, assustadoras, em situa\u00e7\u00f5es tristes, engra\u00e7adas, inesperadas, enfim. Um monte de cheiro, cor e barulho. Uma oportunidade de colocar o sert\u00e3o na literatura de um jeito que eu nunca li. Uma forma de chegar at\u00e9 l\u00e1, finalmente, com um livro meu. J\u00e1 que agora eu estou numa grande editora, j\u00e1 que agora meu livro fala sobre n\u00f3s, com nossas protagonistas, e descreve nossas ruas, com nossa l\u00edngua. \u00c9 um livro escrito com sotaque, com as palavras escritas do jeito que falamos. Uma afirma\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O seu projeto de escrita \u00e9 superambicioso n\u00e3o s\u00f3 no sentido tem\u00e1tico, mas tamb\u00e9m no de g\u00eanero. Voc\u00ea passa por tudo, poema, conto, prosa. Como \u00e9 o seu processo criativo? Como voc\u00ea se abastece de refer\u00eancias para conseguir n\u00e3o s\u00f3 enredo, mas seguran\u00e7a na forma?<\/strong><\/p>\n<p>Sinceramente, s\u00f3 me sinto livre para fazer o que eu quiser quando eu quiser. Escrever o que me vier de mais sincero naquele momento da vida. E eu n\u00e3o me sinto muito segura na forma, exceto quando me sinto. Os momentos em que estou mais confiante s\u00e3o quando percebo que h\u00e1 um significado para aquela escolha que tomei. Por exemplo, o <em>Redemoinho em dia quente<\/em>. Eu me sinto muito feliz com minha escolha de escrever o livro com sotaque. H\u00e1 um motivo para essa escolha est\u00e9tica, eu nunca li nada assim antes, representa toda uma quest\u00e3o de valoriza\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica do Cariri, essa \u00e9 a minha voz. Percebe como tenho colunas segurando a estrutura? Estou em paz com meu estilo. Acho ent\u00e3o que a quest\u00e3o \u00e9 estar consciente da pr\u00f3pria escrita. Por isso que repito tanto que escrever n\u00e3o \u00e9 um dom, n\u00e3o bate uma inspira\u00e7\u00e3o com uma ilumina\u00e7\u00e3o especial. Eu falo que \u00e9 um processo de <em>insight<\/em>, voc\u00ea vai juntando refer\u00eancias, peda\u00e7os de uma imagem, at\u00e9 que ela se forma inteira, e foi seu c\u00e9rebro trabalhando o tempo todo com seu desejo de criar e as refer\u00eancias a sua volta. Faz parte do meu processo ver s\u00e9ries, filmes, ouvir m\u00fasica, conversar com as pessoas, jogar videogame, passear com meu cachorro, me desesperar olhando pro teto, escrever um monte de coisa que parece in\u00fatil. Tudo est\u00e1 mexendo e a imagem est\u00e1 l\u00e1 se completando. Eu n\u00e3o tenho rotina, viajo muito para eventos, escrevo nos espa\u00e7os de tempo. Aprendi a respeitar esses caminhos. Tamb\u00e9m aprendi que me sentir desconfort\u00e1vel \u00e9 o motivo por que escrevo, ent\u00e3o trabalho para que o desconforto seja uma pe\u00e7a da minha cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um movimento cada vez maior de autores e autoras crescidos em condi\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas. \u00c9 justo dizer que estamos assistindo ao desabrochar de uma nova literatura brasileira ou ainda \u00e9 muito cedo? O que voc\u00ea espera ver na literatura nos pr\u00f3ximos anos?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que h\u00e1 muitas periferias na literatura. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es complexas, tamb\u00e9m muito positivas, outras ainda p\u00e9ssimas. Mas eu vejo movimento e acho isso important\u00edssimo. Quando a gente se mexe \u00e9 \u00f3timo. N\u00e3o posso dizer que temos uma nova literatura brasileira, mas acho que deve ter gente j\u00e1 dando uma conversada sobre isso nas universidades. O que eu sei com certeza \u00e9 que desejo ver muita criatividade na literatura brasileira. E pra que a literatura seja criativa, ela precisa ser cheia de narrativas variadas, cen\u00e1rios variados, autoras e autores variados, com linguagens variadas e olhares variados. \u00c9 lindo quando a gente entende a criatividade desse jeito.<\/p>\n<p>Quer\u00a0receber todos os meses livros de indicados por grandes nomes da literatura? <a href=\"https:\/\/taglivros.com\/associe-se\/escolha-sua-caixinha\">Assina <\/a>a TAG Curadoria e venha viver essa experi\u00eancia com a gente!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA realidade vai al\u00e9m dos nossos enquadramentos.\u201d Jarid Arraes se p\u00f5e no mundo com a vis\u00e3o de uma diva pop e a sensibilidade do sert\u00e3o. A curadora do m\u00eas conversou por e-mail com a TAG sobre sua viv\u00eancia na literatura, sobre descobrir escritoras negras e sobre tudo aquilo que Alice Walker pode nos ensinar. 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