{"id":1107,"date":"2017-04-05T13:33:02","date_gmt":"2017-04-05T16:33:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.taglivros.com\/blog\/?p=1107"},"modified":"2017-04-05T13:33:02","modified_gmt":"2017-04-05T16:33:02","slug":"entrevista-adriana-lisboa-tag","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/taglivros.com\/blog\/entrevista-adriana-lisboa-tag\/","title":{"rendered":"Entrevista com Adriana Lisboa: &#8220;A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de dan\u00e7a&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>A escritora e tradutora Adriana Lisboa nasceu em 1970 no Rio de Janeiro, onde morou a maior parte da sua vida. Formada em m\u00fasica pela Uni-Rio, trabalhou no meio musical como cantora e professora de flauta antes de decidir estudar Literatura Brasileira. Obteve o diploma de mestrado e, em seguida, o de doutorado em Literatura Comparada, os dois pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Ao seu primeiro romance,\u00a0<em>Os fios da mem\u00f3ria<\/em>\u00a0(1999), se seguiu o vencedor do Pr\u00eamio Jos\u00e9 Saramago\u00a0<em>Sinfonia em branco<\/em>\u00a0(2001), outros quatro livros adultos e tr\u00eas infanto-juvenis.\u00a0Como tradutora, trabalhou com autores como Margaret Atwood, Am\u00f3s Oz, Maurice Blanchot, Cormac McCarthy e, mais recentemente, com o livro\u00a0<em>A c\u00e2mara sangrenta e outras hist\u00f3rias\u00a0<\/em>(2017), de Angela Carter, enviado em mar\u00e7o pela TAG &#8211; Experi\u00eancias Liter\u00e1rias exclusivamente aos associados do clube.<\/p>\n<p><strong>Em 2000, a editora Rocco publicou\u00a0<em>The bloody chamber<\/em>\u00a0(1979) sob o t\u00edtulo\u00a0<em>O quarto do Barba-Azul<\/em>. Voc\u00ea poderia nos explicar melhor por que decidiu alterar para &#8220;A c\u00e2mara sangrenta&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo, eu achei que funcionava ser fiel ao original, e os editores concordaram, ent\u00e3o fomos de &#8220;A c\u00e2mara sangrenta&#8221; mesmo. N\u00e3o me parecia haver motivo para n\u00e3o fazer isso.<\/p>\n<p><strong>Como foi o processo de tradu\u00e7\u00e3o do livro? Surgiram outros impasses?<\/strong><\/p>\n<p>O principal desafio do livro foi, como acontece na maioria dos trabalhos de tradu\u00e7\u00e3o, o compromisso em funcionar como uma esp\u00e9cie de dobradi\u00e7a entre dois idiomas. Quem importa n\u00e3o sou eu, o que importa \u00e9 o texto final em portugu\u00eas. Angela Carter tem um estilo bastante peculiar, e mesmo nessa colet\u00e2nea de contos ela faz experi\u00eancias diversas. O importante era manter-me transparente e permitir que sua literatura fosse recriada no nosso idioma, com toda a sua opul\u00eancia. Felizmente o portugu\u00eas \u00e9 uma l\u00edngua que se presta bastante bem a isso. Um conto particularmente dif\u00edcil foi o do Gato de Botas, que tem um humor bem debochado e erotizado, e nem sempre as solu\u00e7\u00f5es saltavam aos olhos na hora de traduzir.<\/p>\n<p><strong>Em um post de 2013 do seu blog, referente \u00e0 futura publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Han\u00f3i<\/em>, voc\u00ea comenta que \u201cTudo \u00e9 devagarinho para quem escreve fic\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas. Mas por isso mesmo cada passo \u00e9 uma festa\u201d. Em sua opini\u00e3o, quais s\u00e3o os desafios atuais de quem escreve em portugu\u00eas? Voc\u00ea diria que eles s\u00e3o diferentes quando levamos em conta o fator g\u00eanero?<\/strong><\/p>\n<p>Escrever em portugu\u00eas \u00e9 uma dor e uma del\u00edcia. Sofremos de cara no pr\u00f3prio pa\u00eds, que prefere o que vem de fora. Depois, v\u00eam os editores estrangeiros e esperam que o autor brasileiro assuma a tarefa de \u201cexplicar o Brasil,\u201d do contr\u00e1rio raramente interessa. E faltam leitores de portugu\u00eas nas editoras estrangeiras, de modo que \u00e0s vezes j\u00e1 se esbarra nessa dificuldade t\u00e3o b\u00e1sica de sa\u00edda \u2013 a dificuldade de avaliar um livro escrito originalmente em portugu\u00eas. N\u00e3o sei dizer, sinceramente, se o fator g\u00eanero faz alguma diferen\u00e7a, nesse caso. Por sorte contamos com bons incentivos durante v\u00e1rios anos, como as bolsas de tradu\u00e7\u00e3o da Biblioteca Nacional.<\/p>\n<p><strong>Em 2008, voc\u00ea publicou um artigo chamado\u00a0<em>Escrever no Brasil depois de Clarice Lispector: armadilhas ficcionais<\/em>. Assim como Toni Morrison, diversas escritoras contempor\u00e2neas n\u00e3o reivindicam o status de literatura feminista para sua obra e at\u00e9 rejeitam o de literatura feminina. No texto, voc\u00ea argumenta que \u201cN\u00e3o \u00e9 crime que os diversos movimentos sociais se valham da literatura em nome de suas causas. O movimento inverso, por\u00e9m, \u00e9 extremamente simplista, se n\u00e3o pernicioso\u201d. Em que medida voc\u00ea acredita que uma escritora deveria fugir dos r\u00f3tulos de \u201cliteratura feminista\u201d ou \u201cliteratura feminina\u201d para se afirmar no campo liter\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acredito em literatura como bandeira de nada. A literatura n\u00e3o \u00e9 \u201cpara\u201d. N\u00e3o pode se comprometer com nenhuma causa para l\u00e1 do cuidado e da \u00e9tica para com o pr\u00f3prio trabalho liter\u00e1rio, com as pr\u00f3prias palavras. Os temas ditos \u201cfemininos\u201d n\u00e3o precisariam desse r\u00f3tulo, at\u00e9 porque fica dif\u00edcil saber onde parar (por exemplo: publiquei um poema sobre a clitorectomia na Som\u00e1lia, e na \u00e9poca isso causou certa pol\u00eamica entre os leitores de uma revista, porque n\u00e3o sou africana nem mu\u00e7ulmana \u2013 e da\u00ed come\u00e7amos a sobrepor mais r\u00f3tulos aos r\u00f3tulos). De modo geral, acho que na minha obra temas como o afeto, num sentido amplo, e o deslocamento s\u00e3o mais importantes do que os temas habitualmente considerados \u201cfemininos\u201d. Eu n\u00e3o acredito em autores ou autoras reivindicando r\u00f3tulos para o seu trabalho. Acredito, ou n\u00e3o, na qualidade desse trabalho, que nada tem a ver com o fato de serem feministas ou femininos ou outra coisa qualquer.<\/p>\n<p><strong>Em 2008, voc\u00ea publicou o livro infanto-juvenil\u00a0<em>Contos populares japoneses.<\/em>\u00a0No pref\u00e1cio de\u00a0<em>A c\u00e2mara sangrenta<\/em>, voc\u00ea escreve que Angela Carter recusa o r\u00f3tulo de \u201ccontos de fadas para adultos\u201d. Durante o trabalho de tradu\u00e7\u00e3o, voc\u00ea viu algum paralelo entre a repagina\u00e7\u00e3o dos contos cl\u00e1ssicos e o seu livro acerca da literatura oral nip\u00f4nica? Quais seriam essas aproxima\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Meu livro de contos japoneses \u00e9 uma obra muito pouco pretensiosa. Eu estive no Jap\u00e3o com uma bolsa de pequisa em 2006, para escrever o meu romance Rakushisha, e comprei de presente para o meu filho, ent\u00e3o com oito anos, uns livrinhos de hist\u00f3rias da tradi\u00e7\u00e3o oral. Meus recontos foram um desejo de continuar habitando por um pouco mais de tempo aquele universo, ent\u00e3o t\u00e3o presente na minha vida. No caso de Angela Carter, ela realmente revoluciona os contos, transforma-os em outra coisa, s\u00e3o suas hist\u00f3rias, apenas tomando como ponto de partida o universo dos contos de fadas. Al\u00e9m disso, o meu livro usa uma linguagem muito simples, porque pensei nele como uma esp\u00e9cie de leitura \u201ccensura livre\u201d, uma op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica tamb\u00e9m radicalmente distinta da que fez Angela Carter, com suas frases rebuscadas, ornamentadas, cheias de luz e sombra, t\u00e3o densas que a gente chega a sentir sua textura, e t\u00e3o fortemente erotizadas.<\/p>\n<p><strong>Assim como Angela Carter, voc\u00ea passou por uma importante experi\u00eancia no Jap\u00e3o. Em muitos de seus romances, a cr\u00edtica liter\u00e1ria enxerga aspectos que se relacionam com o sil\u00eancio e a migra\u00e7\u00e3o \u2013 considera-se, inclusive, que isso \u00e9 uma caracter\u00edstica dos romances contempor\u00e2neos. O que voc\u00ea pensa a respeito disso?<\/strong><\/p>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o faz parte da minha vida h\u00e1 muito tempo. Moro nos Estados Unidos faz mais de dez anos, com breves passagens por outros lugares antes disso (tive experi\u00eancias absolutamente transformadoras em meus breves per\u00eddos no Jap\u00e3o e em Cuba), e estou de mudan\u00e7a para a Nova Zel\u00e2ndia \u2013 que, ali\u00e1s, \u00e9 um pa\u00eds de impressionantes sil\u00eancios, algo que me fascina. Essa experi\u00eancia do desenraizamento, por mais que venha sempre tingida de um matiz doloroso, j\u00e1 que equivale a diminuir ou mesmo perder o contato com pessoas e lugares que marcaram nossa vida, por outro lado \u00e9 um exerc\u00edcio de despojamento e de toler\u00e2ncia. Olhar para o outro \u00e9 o gesto mais dif\u00edcil e urgente do mundo. Vivemos um tempo de autoexposi\u00e7\u00e3o atroz e de falat\u00f3rio estonteante, inteiramente voltados para o \u201ceu\u201d que fala. Nesse sentido, a migra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma oportunidade de conv\u00edvio com o diferente, me obriga a distender a minha capacidade de compreens\u00e3o e toler\u00e2ncia, me obriga a tirar a venda dos olhos e a me despojar dos meus preconceitos. E me parece imensa a import\u00e2ncia do sil\u00eancio para que, inclusive, seja poss\u00edvel melhor ouvir esse outro. De todo modo, o sil\u00eancio tem, para mim, um valor em si \u2013 um valor positivo. O sil\u00eancio fala, por assim dizer.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 traduziu\u00a0<em>O morro dos ventos uivantes<\/em>\u00a0(1847), de Emily Bront\u00eb, assim como\u00a0<em>Uma voz vinda de outro lugar\u00a0<\/em>(1992), de Maurice Blanchot. Quais s\u00e3o os desafios, nesses dois casos, como tradutora e escritora, de traduzir duas l\u00ednguas t\u00e3o diferentes e obras t\u00e3o distantes temporalmente?<\/strong><\/p>\n<p>O principal desafio \u00e9 o da mod\u00e9stia, eu diria. Um tradutor tem que ser modesto. O que n\u00e3o significa que n\u00e3o deva ser ousado. \u00c0s vezes \u00e9 preciso dar cento e vinte na estrada com o seu fusquinha. Mas o ideal \u00e9 que sejamos quase invis\u00edveis. A sofistica\u00e7\u00e3o dos ensaios de Banchot \u00e9 uma tarefa delicada para qualquer tradutor, que n\u00e3o pode errar na m\u00e3o em nenhum momento. Foi um livro que traduzi frase a frase, como se trabalhasse com ourivesaria. J\u00e1 o cl\u00e1ssico de Emily Bront\u00eb \u00e9 como correr uma maratona, um conv\u00edvio longo com uma obra liter\u00e1ria de uma intensidade aterradora. E, tamb\u00e9m aqui, o que importa \u00e9 manter o m\u00e1ximo de fidelidade sabendo que a fidelidade absoluta n\u00e3o existe, n\u00e3o apenas pela quest\u00e3o da transposi\u00e7\u00e3o idiom\u00e1tica, mas temporal tamb\u00e9m. Para terminar com uma \u00faltima imagem: \u00e9 uma esp\u00e9cie de dan\u00e7a, em que a gente ora se aproxima, ora se afasta um pouco, mas somos sempre n\u00f3s em companhia do outro. Diferente do processo de cria\u00e7\u00e3o, em que voamos sozinhos, mas em companhia do mundo inteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A escritora e tradutora Adriana Lisboa nasceu em 1970 no Rio de Janeiro, onde morou a maior parte da sua vida. Formada em m\u00fasica pela Uni-Rio, trabalhou no meio musical como cantora e professora de flauta antes de decidir estudar Literatura Brasileira. 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